Esclerose Múltipla: Entendendo a Doença e os Tratamentos Mais Avançados
- Ronaldo Gorga
- há 17 horas
- 6 min de leitura

A esclerose múltipla (EM) é uma doença do sistema nervoso central que afeta o cérebro e a medula espinhal. O problema acontece porque o próprio sistema imunológico ataca a mielina, uma camada protetora ao redor dos neurônios, prejudicando a comunicação entre o cérebro e o resto do corpo. Isso pode levar a sintomas como fadiga, fraqueza muscular, problemas de visão e dificuldades cognitivas. Estima-se que cerca de 2,8 milhões de pessoas no mundo tenham EM, com um número significativo de casos no Brasil (ABEM, 2024).
Com os avanços na ciência, novas descobertas sobre as causas da doença e tratamentos inovadores trazem esperança para os pacientes. Vamos explorar as razões por trás da EM e como os tratamentos estão evoluindo.
O Que Acontece no Corpo com a Esclerose Múltipla?
O Ataque do Sistema Imunológico
Normalmente, o sistema imunológico nos protege contra vírus e bactérias. No caso da EM, ele se confunde e ataca a mielina, como se fosse uma ameaça. Isso causa inflamação e danos aos nervos, dificultando a transmissão dos sinais elétricos entre o cérebro e o corpo. Esse ataque envolve:
Células de defesa (linfócitos T e B) que atravessam a barreira protetora do cérebro.
Liberação de substâncias inflamatórias (como TNF-α e IL-17) que prejudicam a mielina.
Danos aos neurônios, resultando em sintomas variados que pioram com o tempo (Hemmer et al., 2015).
Fatores de Risco e Possíveis Causas

O Papel do Vírus Epstein-Barr (EBV)
Estudos recentes mostraram que a infecção pelo vírus Epstein-Barr (EBV), responsável pela mononucleose, pode estar ligada ao desenvolvimento da EM.
Uma pesquisa com 10 milhões de militares americanos revelou que 100% dos pacientes com EM já haviam sido infectados pelo EBV, aumentando em 32 vezes o risco de desenvolver a doença (Bjornevik et al., 2022).
O vírus pode contribuir para a EM porque:
Se parece com proteínas da mielina, fazendo com que o sistema imunológico ataque as duas.
Ativa células de defesa no cérebro, causando inflamação crônica.
Vitamina D e o Sistema Imunológico
A falta de vitamina D também pode estar relacionada à EM. Essa vitamina tem papel importante na regulação do sistema imunológico. Pessoas com baixos níveis de vitamina D (menos de 20 ng/mL no sangue) têm duas vezes mais risco de desenvolver EM (Mokry et al., 2015).
A vitamina D pode ajudar porque:
Controla a resposta do sistema imunológico, reduzindo inflamações.
Fortalece a barreira do cérebro contra células agressivas.
A recomendação para manter bons níveis inclui exposição ao sol e suplementação sob orientação médica.

Os Tratamentos Mais Avançados
1. Como Recuperar a Mielina Perdida?
A ciência está desenvolvendo formas de ajudar o cérebro a se reparar. Algumas abordagens incluem:
Clemastina (antialérgico): mostrou potencial para ajudar a regenerar a mielina e melhorar a condução nervosa (Green et al., 2022).
Opicinumab: um medicamento experimental que estimula as células responsáveis pela produção da mielina (fase III de testes).
2. O Poder do Intestino na Esclerose Múltipla
Pesquisas mostram que pessoas com EM têm uma microbiota intestinal diferente. Algumas bactérias “boas” ajudam a regular a inflamação no corpo, e sua ausência pode piorar a doença. Novos estudos analisam:
Probióticos específicos, como Lactobacillus casei, que podem equilibrar o sistema imunológico.
Transplante de microbiota fecal (FMT), técnica em estudo para restaurar um microbioma saudável (ClinicalTrials.gov, 2024).
3. Inteligência Artificial no Diagnóstico
Novas tecnologias estão ajudando médicos a prever surtos e acompanhar a progressão da EM com mais precisão. Empresas como Google DeepMind estão treinando algoritmos para analisar exames de ressonância magnética e identificar sinais precoces da doença.
Como o Brasil Está Avançando nos Tratamentos
No Brasil, além das terapias experimentais em estudo globalmente, existem alternativas acessíveis que podem complementar o tratamento da esclerose múltipla (EM) por meio da modulação da microbiota intestinal e suporte à regeneração neural. Abaixo, detalhamos algumas dessas abordagens, destacando seus mecanismos de ação e evidências científicas.
1. Dieta Anti-inflamatória Personalizada
A relação entre alimentação e EM é amplamente estudada. No Brasil, estratégias nutricionais são utilizadas para reduzir a inflamação sistêmica e modular o eixo intestino-cérebro. Algumas intervenções incluem:
Redução de alimentos pró-inflamatórios, como ultraprocessados e ricos em ácidos graxos trans, que estimulam a produção de citocinas inflamatórias.
Aumento do consumo de polifenóis e flavonoides, presentes em frutas vermelhas, chá-verde e cúrcuma, que atuam na neutralização do estresse oxidativo e modulação da resposta imunológica.
Dieta rica em fibras prebióticas, como inulina e amido resistente, que favorecem a produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), essenciais para a integridade da barreira hematoencefálica.
2. Uso Clínico de Probióticos e Prebióticos
Pacientes com EM apresentam um desbalanço na microbiota intestinal, com redução de bactérias anti-inflamatórias e aumento de patógenos oportunistas. No Brasil, cepas probióticas específicas disponíveis em formulações comerciais e manipuladas incluem:
Lactobacillus rhamnosus e Bifidobacterium longum: Atuam na modulação da imunidade inata, reduzindo a ativação exacerbada de linfócitos T autorreativos.
Faecalibacterium prausnitzii: Associado à produção de butirato, um AGCC com propriedades anti-inflamatórias que auxilia na manutenção da homeostase intestinal e na integridade da barreira hematoencefálica.
Saccharomyces boulardii: Possui efeito imunomodulador e é utilizado no manejo da disbiose associada a doenças autoimunes.
3. Suplementação de Compostos Neuroprotetores
A modulação da neuroinflamação e a promoção da remielinização podem ser otimizadas com o uso de compostos bioativos, amplamente disponíveis no mercado nacional:
Ômega-3 (EPA/DHA): Evidências demonstram que ácidos graxos poli-insaturados possuem ação neuroprotetora ao reduzirem a ativação microglial e promoverem a plasticidade neuronal.
Resveratrol: Polifenol encontrado em uvas e disponível em suplementação, com propriedades antioxidantes que reduzem a peroxidação lipídica das membranas neuronais.
Vitamina B12 e colina: Essenciais para a síntese de fosfolipídios da bainha de mielina e o funcionamento adequado do sistema nervoso central.
4. Fitoterápicos com Potencial Imunomodulador
O uso de compostos vegetais com ação anti-inflamatória vem sendo explorado como terapia complementar na EM. Algumas opções viáveis no Brasil incluem:
Cúrcuma (Curcuma longa): Inibidora da via NF-kB, reduzindo a produção de citocinas inflamatórias como TNF-α e IL-6.
Extrato de chá-verde (Epigallocatechin gallate - EGCG): Possui propriedades antioxidantes e inibe a ativação exacerbada de células T autorreativas.
Astragalus membranaceus: Tradicionalmente utilizado na medicina chinesa, apresenta propriedades imunomoduladoras ao estimular células T reguladoras (Tregs).
5. Monitoramento e Suplementação de Vitamina D
A deficiência de vitamina D é um fator de risco estabelecido para a EM, sendo sua suplementação amplamente recomendada no Brasil. Estudos sugerem que níveis adequados (40-60 ng/mL) promovem:
Aumento da atividade das células T reguladoras, reduzindo a inflamação autoimune.
Melhora da barreira hematoencefálica, dificultando a entrada de células pró-inflamatórias no sistema nervoso central.
Redução da frequência de surtos e da progressão da doença em pacientes com níveis otimizados.
6. Terapias Complementares Disponíveis no Brasil
Além das abordagens nutricionais e farmacológicas, algumas práticas terapêuticas têm sido utilizadas para melhorar a qualidade de vida dos pacientes:
Acupuntura e eletroestimulação transcutânea: Evidências sugerem que essas técnicas podem modular a dor neuropática e reduzir a espasticidade muscular em pacientes com EM.
Fisioterapia especializada e reabilitação neuromotora: Programas personalizados ajudam na manutenção da funcionalidade e mobilidade, prevenindo complicações motoras.
Técnicas de mindfulness e biofeedback: Estratégias que auxiliam no controle do estresse, um fator conhecido por precipitar surtos na EM.
Essas alternativas, quando aplicadas sob orientação médica e nutricional, reforçam a importância da medicina personalizada no manejo da esclerose múltipla, proporcionando um tratamento mais eficaz e individualizado.
Conclusão
A esclerose múltipla continua sendo um desafio, mas a ciência está avançando rapidamente. Novos tratamentos estão sendo testados para reparar danos, modular o sistema imunológico e melhorar a qualidade de vida dos pacientes. Manter uma abordagem personalizada no tratamento e se informar sobre as novas terapias pode fazer toda a diferença.
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Referências Científicas:
1. BJORNEVIK, K. et al. Longitudinal Analysis Reveals High Prevalence of Epstein-Barr Virus Associated with MS. Science, 2022. Disponível em: https://www.science.org/doi/10.1126/science.abj8222
2. GREEN, A. J. et al. Clemastine Fumarate as a Remyelinating Therapy for MS. The Lancet, 2017. Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(17)32346-2/abstract
3. MOKRY, L. E. et al. Vitamin D and Risk of Multiple Sclerosis: A Mendelian Randomization Study. PLoS Medicine, 2015. Disponível em: https://journals.plos.org/plosmedicine/article?id=10.1371/journal.pmed.1001866
4. LASSMANN, H. Pathology and Disease Mechanisms in Different Stages of Multiple Sclerosis. J Neurol Sci, 2018. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0022510X13002177
5. FAISSNER, S. GOLD, R. Efficacy and Safety of the Newer Multiple Sclerosis Drugs Approved Since 2010. CNS Drugs, v. 32, n. 3, p. 269–287, 2018. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29600441/
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